Mostrar mensagens com a etiqueta Maria do Rosário Pedreira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria do Rosário Pedreira. Mostrar todas as mensagens
07 março 2013
"Ofereço-te Palavras..."
"Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido
está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que
continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.
Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse
beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei
em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une."
(Maria do Rosário Pedreira)
29 outubro 2012
"Toca-me onde me dói..."
"Toca-me onde me dói e verás
uma flor a abrir-se lentamente
sobre a pele, a maravilha nunca
adivinhada de um mistério. Esta
é a tua vez de o desvendares -
paixão é uma palavra demasiado
antiga no meu corpo, já não sei a
última vez, a única vez. Toca-me
por isso devagar, não me lembro
da primavera que fez nascer a
doença sobre a ferida, não sinto
o recorte da cicatriz que o tempo
pousou nela. Agora chama-me ao
teu peito com as mãos, tal como a
chuva chama pelos narcisos sem
cessar, ano após ano; diz o meu
nome com os dedos a serem rios
que latejam no coração adormecido
de uma aldeia. Não adivinhes -
lá, onde me doer, vou recordar-me."
(Maria do Rosário Pedreira)
28 outubro 2012
"Trocáramos as cartas do começo..."
"Trocáramos as cartas do começo - alegrias tão
frágeis, mas tão fundas, de quem mal se conhece
e já se amam; todo um inverno, diante das palavras,
o movimento dos pássaros no interior dos olhos,
o lume das estrelas na ponta dos dedos. De um
encontro tão breve é sempre fácil esquecer o que
nunca se viu. E, nessa tarde, enquanto te escutava,
soube que a memória era um espelho partido -
porque ler-te era uma coisa, mas ouvir-te era outra; e
o rosto que espreitara do papel fora eu que o desenhara;
e a assinatura ao fundo da página era o nome de uma
outra vida que eu tecera - como se na tua boca,
nesse tempo, falassem duas vozes desencontradas."
(Maria do Rosário Pedreira)
22 outubro 2012
"Somos as pontas de uma mesma fita..."
"Somos as pontas de uma mesma fita
e acordamos atados de manhã num
nó que ainda demora a desfazer. Ao
levantar-me, arrasto-te comigo, mas
no resto da vida é ao contrário - e eu
nem me importo que me leves atrás
se o laço for contigo, e apertado. Mas,
quando calha, é mais comprida a fita; e
eu - inquiéta, sem saber onde estás - fico
a contar os metros, aflita, e a magicar em
franzido se embaraços. Eis se não quando
tu pareces amarrotado de cansaço e nos
meus braços logo te desfias. Vencido
o susto, passa-se a fita a ferro - para
se enredar de novo num nó cego que
de manhã vai ser um custo desatar."
(Maria do Rosário Pedreira)
20 outubro 2012
"Vamos ser velhos..."
"Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a
chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será - porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes - por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha
sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa -
se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar."
(Maria do Rosário Pedreira)
16 outubro 2012
"Arte Poética..."
![]() |
| foto de filipe's glance |
"Num romance, uma chávena é apenas
uma chávena — que pode derramar
café sobre um poema, se o poeta,
bem entendido, for a personagem.
Num poema, mesmo manchado
de café, a chávena é certamente a
concha de uma mão — por onde eu
bebo o mundo, em maravilha, se tu,
bem entendido, fores o poeta.
No nosso romance, não sou sempre
eu quem leva as chávenas para a mesa
aonde nos sentamos a noite, de mãos dadas,
a dizer que a lata do café chegou ao fim,
mas a pensar que a vida é
que já vai bastante adiantada para os
livros todos que ainda pensamos ler.
No meu poema, não precisamos
de café para nos mantermos acordados:
a minha boca está sempre na concha da tua mão,
todos os dias há páginas nos teus olhos,
escreve-se a vida sem nunca envelhecermos."
(Maria do Rosário Pedreira)
18 julho 2012
"O gato lembra-se de ti..."
"O gato lembra-se de ti nos intervalos. Espera
de olhos acesos as histórias que nos contas.
Passeia-se inquieto sobre o meu parapeito e eriça
o pêlo, cúmplice, quando pressente que regressas.
Chegas sempre de noite. Sei quem és e ao que vens
e ofereço-te o silêncio de um pequeno quarto recuado.
as sombras das traseiras na minha pele, o tempo
de repetir um gesto inevitável. Ouço-te contar
a mesma lenda com lábios sempre novos. Aprendo-a
e esqueço-a. Nunca a saberemos de cor, o gato e eu.
Depois partes. Levas contigo a tua voz, mas a música
fica. Eu fecho as portas de vagar. O gato mia baixo
à janela. Ninguém acena: guardamos com os outros
o segredo das tuas visitas. Ambos. O gato e eu."
(Maria do Rosário Pedreira)
23 junho 2012
"Afasto as cortinas devagar..."
"Afasto as cortinas devagar; e, atrás dos vidros, acordo
o silêncio de um muro de granito onde já não se demora
a luz. Lembro-me sem querer de ti e convoco as memórias
de um quarto antigo para não repetir o que os livros
diriam sempre de outro modo. Contemplo a surda vegetação
o silêncio de um muro de granito onde já não se demora
a luz. Lembro-me sem querer de ti e convoco as memórias
de um quarto antigo para não repetir o que os livros
diriam sempre de outro modo. Contemplo a surda vegetação
da sombra, os pequenos animais à deriva, a noite rasgada
ao meio pelos gumes da lua. Aguardo provavelmente o teu
regresso, embora secretamente. Mas o que acode à janela
ao meio pelos gumes da lua. Aguardo provavelmente o teu
regresso, embora secretamente. Mas o que acode à janela
é uma impressão luminosa e fria que desfigura o olhar
e dá das coisas apenas metades imperfeitas ou estilhaços
que lembram a arquitectura da poeira sobre as baías.
e dá das coisas apenas metades imperfeitas ou estilhaços
que lembram a arquitectura da poeira sobre as baías.
A sabedoria é um gomo amargo que se consome junto aos
lábios. Ainda que quisesse murmurar o teu nome, como
o sol a morder os pátios de manhã, calo-me para sempre.
Esqueço-me talvez de ti, embora secretamente."
(Maria do Rosário Pedreira)
lábios. Ainda que quisesse murmurar o teu nome, como
o sol a morder os pátios de manhã, calo-me para sempre.
Esqueço-me talvez de ti, embora secretamente."
(Maria do Rosário Pedreira)
22 junho 2012
"Caminho pelo lado da rebentação das ondas..."
"Caminho pelo lado da rebentação das ondas ―
o litoral guarda segredo dos meus passos entre
as redes de sal trazidas pelos barcos
o labirinto das algas ainda agora oferecidas
à praia. Sinto-me à mercê das falésias a riscar
o teu nome na areia; e é como se lentamente
pronunciasse um chamamento triste a que ninguém
acode. Fez-se tarde para os lamentos das sereias:
agora as marés dobam novelos de espuma à roda
dos meus pés, as águas já não transportam
a minha voz, a perder-se sobre as dunas
que os ventos vão desbastando devagar
ao cair da noite. Tenho sempre medo que não voltes."
(Maria do Rosário Pedreira)
20 junho 2012
"Sentaram-se na areia ..."
"Sentaram-se na areia e descalçaram os sapatos.
Puseram-se a contar pelos dedos os barcos
que faltariam para chegar o Verão.
Nenhum deles falava. Tinham passado juntos
algumas noites, num quarto sem vista. E, embora
julgassem o contrário, não conheciam um do outro muito mais do que isso.
Estavam ali sentados para ver se acontecia alguma coisa.
No Verão
alguém viria forçosamente buscá-los."
(Maria do Rosário Pedreira)
19 junho 2012
"Amávamos ambos as falésias..."
"Amávamos ambos as falésias, o recorte das escarpas,
o desenho irregular dos promontórios; todos os lugares
que, como as ilhas, são agastados pelo mar e pelos ventos.
Não havia neblina nessa noite. Apenas a luz opaca
de um farol atormentando as estrelas. Disseste
quase nada para não ferires um atordoado silêncio
interior. E tocaste-me pela primeira vez os seios
como se disso, para sempre, fosses ter medo.
Abandonaste a praia logo que chegou o primeiro pescador:
a primeira lanterna,
a primeira rede."
(Maria do Rosário Pedreira)
05 abril 2012
"Amanhã, meu amor, já não terás..."
![]() |
| (foto de filipe's glance) |
"Amanhã, meu amor, já não terás de ouvir-me contar
quantos dias não passaram por falta dos teus beijos;
nem quantas noites estranhei a cama onde sempre dormi
e acordei no escuro gritando pelo teu corpo, e gemi
depois baixinho, como um cão perdido, até um feixe
de luz decepar o meu quarto e o eco da cidade me
devolver o rumor da vida. Os meus lábios estarão
então tão frios para palavras como são frios os ventos
que se encostam às esquinas; e frias também as águas
que tiritam nos lagos onde repousa o gelo das manhãs.
Amanhã, meu amor, já não terás de ver nos meus olhos
o reflexo das velas cansadas das viagens; nem das aves
que sobrevoaram o cais, mas por descrerem do verão,
desistiram de perseguir os barcos que se foram a um país
de sol. E não terás também de ver as minhas lágrimas, porque
a mão de um anjo virá cerrar-me as pálpebras para esconder
deste mundo que a morte nunca chega para quem ama.
Amanhã, meu amor, já não terás de desviar-te dos gestos
que, sem querer, escorregavam dos meus dedos; nem
de pressentir os espasmos de desejo na carne que as tuas
mãos desabitaram; e não terás de saber que, pela última vez,
me perfumei para ti - porque haverá em todo o caso
demasiadas flores, e o meu corpo estará então inerte
como as sombras que pernoitam nos veios das montanhas
ou os seixos que nasceram nas praias que o mar nunca tocou.
Amanhã, meu amor, já não terás de ler os avisos que soprei
tantas vezes na queimadura de uma página; nem as feridas
abertas nesses riscos que eu fazia nas toalhas de papel quando
o teu silencio era mesmo um parágrafo e o meu pranto
desaguava num fio de tinta que escorria para dentro da tua mão.
As canetas terão então secado; e os meus versos serão velhos
como os livros mutilados pelas traças, velhos como a vida,
e vãos como os nomes acumulados inutilmente na memória."
(Maria do Rosário Pedreira)
20 março 2012
"Não tenhas medo do amor..."
"Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera."
(Maria do Rosário Pedreira)
13 março 2012
"De tarde viera alguém com flores..."
jacintos, narcisos, despedidas - a a porta ficara
aberta desde então. Agora as traças ciciavam
lá fora numa alegria turva em redor de uma
lâmpada; e, sobre o banco do alpendre, jazia um
livro aberto na mesma página fazia quase um dia.
Batia-me nos pulsos uma vida vencida; e, mesmo
que a terra apenas aguardasse o fulgor da manhã
para chamar pelo teu corpo, tive a certeza de que
era sobre o meu que a noite eternamente se abatia"
(Maria do Rosário Pedreira)
10 março 2012
"Aqui os búzios sopram mentiras sobre o mar..."
"Aqui os búzios sopram mentiras sobre o mar
nos meus ouvidos; e dizem que, uma noite,
uma onda veio buscar a tua voz e a levou para tão longe
e por tanto tempo que, na manhã seguinte, ao acordar,
eu a tinha esquecido como a um sonho. Mas
que antes disso (de madrugada, em suma) - quando
eu sonhava o que já não recordaria - cem anjos
estenderam outra onda até meio da praia
e nela se sentaram quietos a vigiar as sombras até
que se lembraram de roubar-te as pegadas e
de as guardar sob as asas (como os meninos que
apanham conchas na maré-vazia). E levando-as se foram
então daqui ao primeiro sol, vogando no dorso prateado
das nuvens, deixando a praia fria e deserta como agora.
Mas eu não regressei a este lugar para ouvir lendas
nem escutar os recados do silêncio. E, se pressinto
que a casa está trancada, não há-de ser senão
para evitar que nela se vinguem os ventos do seu tédio
de verão. Porque lá dentro haverá, como sempre, mantas
de xadrez aos pés da cama, e uma chaleira pousada
no fogão, e uma lata de café que conserva o perfume
de um continente solar onde se plantam sonhos,
e livros marcados com bilhetes de amor, e memórias,
e lenha (tanta) para queimar todas as mentiras."
(Maria do Rosário Pedreira)
05 março 2012
"Se partires, não me abraces..."
"Se partires, não me abraces - a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.
Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces -
o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar) ; e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas."
(Maria do Rosario Pedreira)
26 fevereiro 2012
"O meu amor não cabe num poema..."
"O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.
O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.
O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera de um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.
O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa."
(Maria do Rosário Pedreira)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
















