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17 junho 2012

"Viagem..."



"O beijo da quilha
na boca da água
me vai trocando entre céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na funda transparência
sinto a vertigem
da minha própria origem
e nem sequer já sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga minha alma


Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos"


(Mia Couto)

04 abril 2012

"Identidade..."


"Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço"



(Mia Couto) 

22 março 2012

"Aguário..."




"Que idade
tem o rio?
Sua infância flui
sempre menimesma
Sua voz permanece azul,
água aberta, alçapão
por onde o tempo perde a voz
e o imenso se faz imerso

Fumo molhado
que todos bebemos
crença que aprendemos:
a vontade do rio
morrendo eterna no infinito

Pássaro:
quem decepou tuas raízes?

Terra fluida
e transparente,
margem e leito
se invertem no percurso
até o mundo
ser um rio de águas lentas,
sólidas e sonolentas
tão devagarosas
que escapam da moldura do tempo"

(Mia Couto)

21 março 2012

"Pergunta-me..."





"Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser

se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer"

(Mia Couto)

11 março 2012

"Poema da despedida..."

(foto de filipe's glance)


"Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo."



(Mia Couto)

08 março 2012

"Despedida..."



"Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos
quando anunciaste a despedida
e eu que habitara lugares secretos
e me embriagara com os teus gestos
recolhi as palavras vagabundas
como a tempestade que engole os barcos
porque ama os pescadores

Impossível separarmo-nos
agora que gravaste o teu sabor
sobre o súbito
e infinito parto do tempo

Por isso te toco
no grão e na erva
e na poeira da luz clara
a minha mão
reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira
exausto
e desfila entre mercados e ruas
eu escuto sempre a voz que é tua
e que dos lábios
se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam
os corpos dos amantes
o te ventre aceitou a gota inicial
e um novo habitante
enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar
encostámos os nossos lábios
à funda circulação do sangue
porque me amavas
eu acreditava ser todos os homens
comandar o sentido das coisas
afogar poentes
despertar séculos à frente
e desenterrar o céu
para com ele cobrir
os teus seios de neve"

(Mia Couto)

04 março 2012

"Aprendizagem da Primavera..."


E se é a despedida das desnudas árvores, também é a chegada de novos rebentos, que anunciam o regresso da Primavera...





"Depois
 a mulher deitou-se

A sombra da terra
 tombou sobre o céu

Não sei o que te invento
 se amo mesmo quando não és

Não sei o que te amo
 se te invento como és

Palavras que voltam
 se não voltas
 Cega-nos a mesma noite
 o mesmo suspiro
 de duas mãos entrelaçadas"

(Mia Couto)

"Árvore..."

E porque nesta cidade já se sente o perfume e os sons da Primavera, não tarda estas árvores despidas vão voltar a florir, vão voltar a usar os seus frondosos vestidos.
Como tal, aqui fica a despedida destas desnudas árvores…










"cego
de ser raíz

imóvel
de me ascender caule

múltiplo
de ser folha

aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo"

(Mia Couto)