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09 novembro 2012

"Gozo e dor.."



"Se estou contente, querida, 
Com esta imensa ternura 
De que me enche o teu amor? 
- Não. Ai não; falta-me a vida; 
Sucumbe-me a alma à ventura: 
O excesso de gozo é dor. 

Dói-me a alma, sim; e a tristeza 
Vaga, inerte e sem motivo, 
No coração me poisou. 
Absorto em tua beleza, 
Não sei se morro ou se vivo, 
Porque a vida me parou. 

É que não há ser bastante 
Para este gozar sem fim 
Que me inunda o coração. 
Tremo dele, e delirante 
Sinto que se exaure em mim 
Ou a vida - ou a razão." 

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

07 novembro 2012

"Quando eu sonhava..."




"Quando eu sonhava, era assim 
Que nos meus sonhos a via; 
E era assim que me fugia, 
Apenas eu despertava, 
Essa imagem fugidia 
Que nunca pude alcançar. 
Agora, que estou desperto, 
Agora a vejo fixar... 
Para quê? - Quando era vaga, 
Uma ideia, um pensamento, 
Um raio de estrela incerto 
No imenso firmamento, 
Uma quimera, um vão sonho, 
Eu sonhava - mas vivia: 
Prazer não sabia o que era, 
Mas dor, não na conhecia ... "

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

06 novembro 2012

"O Álbum.."

(ainda as "Folhas Caídas...")


"Minha Júlia, um conselho de amigo; 
Deixa em branco este livro gentil: 
Uma só das memórias da vida 
Vale a pena guardar, entre mil. 

E essa n’alma em silêncio gravada 
Pelas mãos do mistério há-de ser; 
Que não tem língua humana palavras, 
Não tem letra que a possa escrever. 

Por mais belo e variado que seja 
De uma vida o tecido matiz , 
Um só fio da tela bordada, 
Um só fio há-de ser o feliz. 

Tudo o mais é ilusão, é mentira, 
Brilho falso que um tempo seduz, 
Que se apaga, que morre, que é nada 
Quando o sol verdadeiro reluz. 

De que serve guardar monumentos 
Dos enganos que a esp’rança forjou? 
Vãos reflexos de um sol que tardava 
Ou vãs sombras de um sol que passou! 

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida 
Eu coa minha ventura sonhei; 
E uma só, dentre tantas, o juro, 
Uma só com verdade a encontrei. 

Essa entrou-me pela alma tão firme, 
Tão segura por dentro a fechou, 
Que o passado fugiu da memória, 
Do porvir nem desejo ficou. 

Toma pois, Júlia bela, o conselho: 
Deixa em branco este livro gentil, 
Que as memórias da vida são nada, 
E uma só se conserva entre mil. "

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

05 novembro 2012

"Adeus!"

(ainda as "Folhas Caídas...")


"Adeus! para sempre adeus! 
Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora 
Sinto a justiça dos céus 
Esmagar-me a alma que chora. 
Choro porque não te amei, 
Choro o amor que me tiveste; 
O que eu perco, bem no sei, 
Mas tu... tu nada perdeste; 
Que este mau coração meu 
Nos secretos escaninhos 
Tem venenos tão daninhos 
Que o seu poder só sei eu. 

Oh! vai... para sempre adeus! 
Vai, que há justiça nos céus. 
Sinto gerar na peçonha 
Do ulcerado coração 
Essa víbora medonha 
Que por seu fatal condão 
Há-de rasgá-lo ao nascer: 
Há-de sim, serás vingada, 
E o meu castigo há-de ser 
Ciúme de ver-te amada, 
Remorso de te perder. 

Vai-te, oh! vai-te, longe, embora, 
Que sou eu capaz agora 
De te amar - Ai! se eu te amasse! 
Vê se no árido pragal 
Deste peito se ateasse 
De amor o incêndio fatal! 
Mais negro e feio no inferno 
Não chameia o fogo eterno. 
Que sim? Que antes isso? - Ai, triste! 
Não sabes o que pediste. 
Não te bastou suportar 
O cepo-rei; impaciente 
Tu ousas a deus tentar 
Pedindo-lhe o rei-serpente! 

E cuidas amar-me ainda? 
Enganas-te: é morta, é finda, 
Dissipada é a ilusão. 
Do meigo azul de teus olhos 
Tanta lágrima verteste, 
Tanto esse orvalho celeste 
Derramado o viste em vão 
Nesta seara de abrolhos, 
Que a fonte secou. Agora 
Amarás... sim, hás-de amar, 
Amar deves... Muito embora... 
Oh! mas noutro hás-de sonhar 
Os sonhos de oiro encantados 
Que o mundo chamou amores. 

E eu réprobo... eu se o verei? 
Se em meus olhos encovados 
Der a luz de teus ardores... 
Se com ela cegarei? 
Se o nada dessas mentiras 
Me entrar pelo vão da vida... 
Se, ao ver que feliz deliras, 
Também eu sonhar... Perdida, 
Perdida serás - perdida. 

Oh! vai-te, vai, longe embora! 
Que te lembre sempre e agora 
Que não te amei nunca... ai! não; 
E que pude a sangue-frio, 
Covarde, infame, vilão, 
Gozar-te - mentir sem brio, 
Sem alma, sem dó, sem pejo, 
Cometendo em cada beijo 
Um crime... Ai! triste, não chores, 
Não chores, anjo do céu, 
Que o desonrado sou eu. 

Perdoar-me tu?... Não mereço. 
A imundo cerdo voraz 
Essas pérolas de preço 
Não as deites: é capaz 
De as desprezar na torpeza 
De sua bruta natureza. 
Irada, te há-de admirar, 
Despeitosa, respeitar, 
Mas indulgente... Oh! o perdão 
É perdido no vilão, 
Que de ti há-de zombar. 

Vai, vai... para sempre adeus! 
Para sempre aos olhos meus 
Sumido seja o clarão 
De tua divina estrela. 
Faltam-me olhos e razão 
Para a ver, para entendê-la: 
Alta está no firmamento 
Demais, e demais é bela 
Para o baixo pensamento 
Com que em má hora a fitei; 
Falso e vil o encantamento 
Com que a luz lhe fascinei. 
Que volte a sua beleza 
Do azul do céu à pureza, 
E que a mim me deixe aqui 
Nas trevas em que nasci, 
Trevas negras, densas, feias, 
Como é negro este aleijão 
Donde me vem sangrar às veias, 
Este que foi coração, 
Este que amar-te não sabe 
Porque é só terra - e não cabe 
Nele uma ideia dos céus... 
Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!" 

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

31 outubro 2012

"Destino..."



"Quem disse à estrela o caminho 
Que ela há-de seguir no céu? 
A fabricar o seu ninho 
Como é que a ave aprendeu? 
Quem diz à planta «Florece!» 
E ao mudo verme que tece 
Sua mortalha de seda 
Os fios quem lhos enreda? 

Ensinou alguém à abelha 
Que no prado anda a zumbir 
Se à flor branca ou à vermelha 
O seu mel há-de ir pedir? 
Que eras tu meu ser, querida, 
Teus olhos a minha vida, 
Teu amor todo o meu bem... 
Ai!, não mo disse ninguém. 

Como a abelha corre ao prado, 
Como no céu gira a estrela, 
Como a todo o ente o seu fado 
Por instinto se revela, 
Eu no teu seio divino . 
Vim cumprir o meu destino... 
Vim, que em ti só sei viver, 
Só por ti posso morrer." 

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

29 outubro 2012

"Beleza..."

(ainda as "Folhas Caídas...")


"Vem do amor a Beleza, 
Como a luz vem da chama. 
É lei da natureza: 
Queres ser bela? - ama. 

Formas de encantar, 
Na tela o pincel 
As pode pintar; 
No bronze o buril 
As sabe gravar; 
E estátua gentil 
Fazer o cinzel 
Da pedra mais dura... 
Mas Beleza é isso? - Não; só formosura. 

Sorrindo entre dores 
Ao filho que adora 
Inda antes de o ver 
- Qual sorri a aurora 
Chorando nas flores 
Que estão por nascer – 
A mãe é a mais bela das obras de Deus. 
Se ela ama! - O mais puro do fogo dos céus 
Lhe ateia essa chama de luz cristalina: 

É a luz divina 
Que nunca mudou, 
É luz... é a Beleza 
Em toda a pureza 
Que Deus a criou."

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

28 outubro 2012

"Folhas Caídas..." - a exposição

E no passado sábado (27 Outubro), foi assim, no mercado de Montemor-o-Novo, o início da exposição "Folhas Caídas...".

Todas as fotos de filipe's glance.








"Os cinco sentidos..."

(ainda as "Folhas Caídas...")




"São belas - bem o sei, essas estrelas, 
Mil cores - divinais têm essas flores; 
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas: 
      Em toda a natureza 
      Não vejo outra beleza 
      Senão a ti - a ti! 

Divina - ai! sim, será a voz que afina 
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa. 
será; mas eu do rouxinol que trina 
      Não oiço a melodia, 
      Nem sinto outra harmonia 
      Senão a ti - a ti! 

Respira - n'aura que entre as flores gira, 
Celeste - incenso de perfume agreste, 
Sei... não sinto: minha alma não aspira, 
      Não percebe, não toma 
      Senão o doce aroma 
      Que vem de ti - de ti! 

Formosos - são os pomos saborosos, 
É um mimo - de néctar o racimo: 
E eu tenho fome e sede... sequiosos, 
      Famintos meus desejos 
      Estão... mas é de beijos, 
      É só de ti - de ti! 

Macia - deve a relva luzidia 
Do leito - ser por certo em que me deito. 
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia 
      Sentir outras carícias, 
      Tocar noutras delícias 
      Senão em ti! - em ti! 

A ti! ai, a ti só os meus sentidos 
      Todos num confundidos, 
      Sentem, ouvem, respiram; 
      Em ti, por ti deliram. 
      Em ti a minha sorte, 
      A minha vida em ti; 
      E quando venha a morte, 
      Será morrer por ti." 

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

27 outubro 2012

"Não és tu!"



"Era assim, tinha esse olhar, 
A mesma graça, o mesmo ar, 
Corava da mesma cor, 
Aquela visão que eu vi 
Quando eu sonhava de amor, 
Quando em sonhos me perdi. 

Toda assim; o porte altivo, 
O semblante pensativo, 
E uma suave tristeza 
Que por toda ela descia 
Como um véu que lhe envolvia, 
Que lhe adoçava a beleza. 

Era assim; o seu falar, 
Ingénuo e quase vulgar, 
Tinha o poder da razão 
Que penetra, não seduz; 
Não era fogo, era luz 
Que mandava ao coração. 

Nos olhos tinha esse lume, 
No seio o mesmo perfume , 
Um cheiro a rosas celestes, 
Rosas brancas, puras, finas, 
Viçosas como boninas, 
Singelas sem ser agrestes. 

Mas não és tu... ai!, não és: 
Toda a ilusão se desfez. 
Não és aquela que eu vi, 
Não és a mesma visão, 
Que essa tinha coração, 
Tinha, que eu bem lho senti." 

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

26 outubro 2012

"Folhas Caídas..."


A partir de sábado - 27 Outubro - e até ao final de Novembro, quem passar pelo Mercado de Montemor-o-Novo (Portugal) pode ir espreitar a minha exposição de fotografia, intitulada “Folhas Caídas...”, no âmbito do Projecto “Mostre-se - Fotografias em Rede” (Rede de Cidadania de Montemor-o-Novo).

Como dizia o poeta Almeida Garret... ”Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por ai caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória”...
Com esta ideia, recolheu no livro intitulado “Folhas Caídas” alguns desses poemas que valiam a pena!

Todos os anos no Outono, também eu sinto a necessidade de captar com as minhas lentes algumas imagens de folhas caídas, para conservar...
Achei interessante escolher algumas dessas imagens que fui captando nos meus “Passeios de Outono...”, aqui por Florença, em anos anteriores. Esperando que valha a pena...
E ainda associei a estas minhas “Folhas Caídas”... os títulos de algumas das poesias do referido poeta...


"Beleza..."

"Quando eu sonhava..."

"Adeus!"

"Aquela Noite!"

"Os cinco sentidos..."

"O álbum..."

"Saudades..."

"O anjo caído..."

"Os exilados..."

"Solidão"

"Destino..."

"Não és tu..."

"Sina..."

"Gozo e dor.."

"Voz e Aroma..."