06 novembro 2012

Finais do dia...


"O Álbum.."

(ainda as "Folhas Caídas...")


"Minha Júlia, um conselho de amigo; 
Deixa em branco este livro gentil: 
Uma só das memórias da vida 
Vale a pena guardar, entre mil. 

E essa n’alma em silêncio gravada 
Pelas mãos do mistério há-de ser; 
Que não tem língua humana palavras, 
Não tem letra que a possa escrever. 

Por mais belo e variado que seja 
De uma vida o tecido matiz , 
Um só fio da tela bordada, 
Um só fio há-de ser o feliz. 

Tudo o mais é ilusão, é mentira, 
Brilho falso que um tempo seduz, 
Que se apaga, que morre, que é nada 
Quando o sol verdadeiro reluz. 

De que serve guardar monumentos 
Dos enganos que a esp’rança forjou? 
Vãos reflexos de um sol que tardava 
Ou vãs sombras de um sol que passou! 

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida 
Eu coa minha ventura sonhei; 
E uma só, dentre tantas, o juro, 
Uma só com verdade a encontrei. 

Essa entrou-me pela alma tão firme, 
Tão segura por dentro a fechou, 
Que o passado fugiu da memória, 
Do porvir nem desejo ficou. 

Toma pois, Júlia bela, o conselho: 
Deixa em branco este livro gentil, 
Que as memórias da vida são nada, 
E uma só se conserva entre mil. "

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

05 novembro 2012

Falling season...






"Adeus!"

(ainda as "Folhas Caídas...")


"Adeus! para sempre adeus! 
Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora 
Sinto a justiça dos céus 
Esmagar-me a alma que chora. 
Choro porque não te amei, 
Choro o amor que me tiveste; 
O que eu perco, bem no sei, 
Mas tu... tu nada perdeste; 
Que este mau coração meu 
Nos secretos escaninhos 
Tem venenos tão daninhos 
Que o seu poder só sei eu. 

Oh! vai... para sempre adeus! 
Vai, que há justiça nos céus. 
Sinto gerar na peçonha 
Do ulcerado coração 
Essa víbora medonha 
Que por seu fatal condão 
Há-de rasgá-lo ao nascer: 
Há-de sim, serás vingada, 
E o meu castigo há-de ser 
Ciúme de ver-te amada, 
Remorso de te perder. 

Vai-te, oh! vai-te, longe, embora, 
Que sou eu capaz agora 
De te amar - Ai! se eu te amasse! 
Vê se no árido pragal 
Deste peito se ateasse 
De amor o incêndio fatal! 
Mais negro e feio no inferno 
Não chameia o fogo eterno. 
Que sim? Que antes isso? - Ai, triste! 
Não sabes o que pediste. 
Não te bastou suportar 
O cepo-rei; impaciente 
Tu ousas a deus tentar 
Pedindo-lhe o rei-serpente! 

E cuidas amar-me ainda? 
Enganas-te: é morta, é finda, 
Dissipada é a ilusão. 
Do meigo azul de teus olhos 
Tanta lágrima verteste, 
Tanto esse orvalho celeste 
Derramado o viste em vão 
Nesta seara de abrolhos, 
Que a fonte secou. Agora 
Amarás... sim, hás-de amar, 
Amar deves... Muito embora... 
Oh! mas noutro hás-de sonhar 
Os sonhos de oiro encantados 
Que o mundo chamou amores. 

E eu réprobo... eu se o verei? 
Se em meus olhos encovados 
Der a luz de teus ardores... 
Se com ela cegarei? 
Se o nada dessas mentiras 
Me entrar pelo vão da vida... 
Se, ao ver que feliz deliras, 
Também eu sonhar... Perdida, 
Perdida serás - perdida. 

Oh! vai-te, vai, longe embora! 
Que te lembre sempre e agora 
Que não te amei nunca... ai! não; 
E que pude a sangue-frio, 
Covarde, infame, vilão, 
Gozar-te - mentir sem brio, 
Sem alma, sem dó, sem pejo, 
Cometendo em cada beijo 
Um crime... Ai! triste, não chores, 
Não chores, anjo do céu, 
Que o desonrado sou eu. 

Perdoar-me tu?... Não mereço. 
A imundo cerdo voraz 
Essas pérolas de preço 
Não as deites: é capaz 
De as desprezar na torpeza 
De sua bruta natureza. 
Irada, te há-de admirar, 
Despeitosa, respeitar, 
Mas indulgente... Oh! o perdão 
É perdido no vilão, 
Que de ti há-de zombar. 

Vai, vai... para sempre adeus! 
Para sempre aos olhos meus 
Sumido seja o clarão 
De tua divina estrela. 
Faltam-me olhos e razão 
Para a ver, para entendê-la: 
Alta está no firmamento 
Demais, e demais é bela 
Para o baixo pensamento 
Com que em má hora a fitei; 
Falso e vil o encantamento 
Com que a luz lhe fascinei. 
Que volte a sua beleza 
Do azul do céu à pureza, 
E que a mim me deixe aqui 
Nas trevas em que nasci, 
Trevas negras, densas, feias, 
Como é negro este aleijão 
Donde me vem sangrar às veias, 
Este que foi coração, 
Este que amar-te não sabe 
Porque é só terra - e não cabe 
Nele uma ideia dos céus... 
Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!" 

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

31 outubro 2012

O "meu" jardim...


E por vezes não é preciso ir muito longe para aproveitar o Outono...

O "meu" jardim, é o jardim da Specola, que posso apreciar todos os dias, e que nesta altura do ano está com umas bonitas cores...






"Destino..."



"Quem disse à estrela o caminho 
Que ela há-de seguir no céu? 
A fabricar o seu ninho 
Como é que a ave aprendeu? 
Quem diz à planta «Florece!» 
E ao mudo verme que tece 
Sua mortalha de seda 
Os fios quem lhos enreda? 

Ensinou alguém à abelha 
Que no prado anda a zumbir 
Se à flor branca ou à vermelha 
O seu mel há-de ir pedir? 
Que eras tu meu ser, querida, 
Teus olhos a minha vida, 
Teu amor todo o meu bem... 
Ai!, não mo disse ninguém. 

Como a abelha corre ao prado, 
Como no céu gira a estrela, 
Como a todo o ente o seu fado 
Por instinto se revela, 
Eu no teu seio divino . 
Vim cumprir o meu destino... 
Vim, que em ti só sei viver, 
Só por ti posso morrer." 

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

30 outubro 2012

"Chove. Há silêncio..."


"Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva 
Não faz ruído senão com sossego. 
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva 
Do que não sabe, o sentimento é cego. 
Chove. Meu ser (quem sou) renego... 


Tão calma é a chuva que se solta no ar 
(Nem parece de nuvens) que parece 
Que não é chuva, mas um sussurrar 
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece. 
Chove. Nada apetece... 

Não paira vento, não há céu que eu sinta. 
Chove longínqua e indistintamente, 
Como uma coisa certa que nos minta, 
Como um grande desejo que nos mente. 
Chove. Nada em mim sente... "

(Fernando Pessoa)

Viagem ao mundo dos Gnomos...



... ou melhor, viagem ao fascinante mundo dos fungos.

Mas, como na minha cabeça, cogumelos e gnomos estão intimamente ligados, pois enquanto me delicio a tirar fotos aos cogumelos, vem-me  à mente desenhos animados  da infância onde gnomos viviam em casas, que eram cogumelos. :-)







29 outubro 2012

"Beleza..."

(ainda as "Folhas Caídas...")


"Vem do amor a Beleza, 
Como a luz vem da chama. 
É lei da natureza: 
Queres ser bela? - ama. 

Formas de encantar, 
Na tela o pincel 
As pode pintar; 
No bronze o buril 
As sabe gravar; 
E estátua gentil 
Fazer o cinzel 
Da pedra mais dura... 
Mas Beleza é isso? - Não; só formosura. 

Sorrindo entre dores 
Ao filho que adora 
Inda antes de o ver 
- Qual sorri a aurora 
Chorando nas flores 
Que estão por nascer – 
A mãe é a mais bela das obras de Deus. 
Se ela ama! - O mais puro do fogo dos céus 
Lhe ateia essa chama de luz cristalina: 

É a luz divina 
Que nunca mudou, 
É luz... é a Beleza 
Em toda a pureza 
Que Deus a criou."

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')