20 março 2012

A visita de Perséfone...


Um dia, quando Perséfone passeava pelo campo e colhia violetas (Viola odorata ....talvez) entre outras plantas.... a Terra abriu-se e Hades, senhor do Reino dos Mortos, raptou-a ...

Perséfone era filha da deusa Deméter (ambas conhecidas simplesmente como "As Deusas"), que regia a fertilidade dos campos e das colheitas (em especial dos cereais). A mãe procurou a filha por muitos locais (existiam locais específicos que os antigos diziam terem sido visitados por Deméter durante a sua demanda, onde ela tinha repousado, etc.). Quando, finalmente, soube qual era o amargo destino reservado à sua filha, não o aceitou e exigiu que Perséfone lhe fosse devolvida.
Uma lei primeva dizia que quem estivesse no Mundo dos Mortos não poderia ingerir qualquer alimento, sob pena de não regressar ao Mundo dos Vivos....Acontece que, enquanto estava no Mundo dos Mortos, Perséfone ingeriu uma semente de romã, ficando, assim, impedida de regressar....
Mas a mãe ameaçou matar os humanos à fome, impedindo que os cereais se desenvolvessem nos campos. Então, os Destinos e os Deuses Supremos aceitaram que Perséfone regressasse, mas apenas por seis meses (não é impunemente que se quebram Leis Eternas, como Perséfone havia feito....).

Quando recebe Perséfone, após seis meses de ausência, Deméter (Ceres) rejubila e os campos enchem-se de flores (Primavera).... o tempo passa e a doçura do reencontro dá lugar ao calor do Verão...Perséfone volta para o Mundo dos Mortos....a mãe entristece-se (Outono)....as saudades gelam o seu coração (Inverno).....mas eis que Perséfone retorna... Primavera.....assim explicavam os gregos a sucessão das estações....uma Lei de Eterno Retorno.....ligada à paixão de Perséfone pela magnífica romã (Punica granatum).









Algumas imagens, que ilustram,  a visita de Perséfone aos jardins de Florença, em 2011...

"Não tenhas medo do amor..."



"Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera."



(Maria do Rosário Pedreira)

" A estátua pensa..."

(foto de filipe's glance)

"A estátua pensa em tudo o que acontece à sua volta.
Tantos gestos, tantos passos, tanto movimento
difícil de justificar. As pessoas passam, passam as
pessoas, pessoas, pessoas, passam, passam. Ninguém
sabe o que pensam as pessoas que passam. Talvez
pensem que passam, apenas. Talvez não pensem, 
apenas passem. As pessoas a passar, a pensar
ou não. Gestos, passos, movimentos e a estátua
no centro exato do seu próprio pensamento." 

(José Luís Peixoto)

19 março 2012

Finesettimana...


E assim se passou, mais um preenchido fim de semana, para além da visita a mais uma feira, pois finalmente fui conhecer a “Fortezza Antiquario”. Houve tempo para um rápido passeio pelo “mercado biológico” e ainda as habituais deambulações pela cidade. Para completar o fim de semana, houve uma enriquecedora caminhada pelo bosque, e um regresso a Fiesole. Uma pequena cidade, próximo de Florença, que nos permite uma soberba vista sobre a mesma...

Por coincidência, havia também um mercado, de artesanato, nesta pequena terrinha (são eles que “brotam”, pelas praças, não sou eu que os procuro!).








Fiesole

18 março 2012

Hoje de manhã no "Mercado Biológico"...


Hoje de manhã, fiz uma rápida visita ao "mercado biológico", para comprar um delicioso pão de cereais e uma torta de limão (a melhor de Florença e arredores).
E mais uma vez, a Piazza Santo Spirito, palpitava de vida e cor... 











17 março 2012

"Fortezza Antiquario..."


Depois de a semana passada, aqui ter falado da Feira de Antiguidades e Velharias, na Piazza de Santo Spririto. Hoje repeti a dose, finalmente fui à "Fortezza Antiquario", outra feira do género, muito maior, da qual já tinha ouvido falar, mas que só hoje consegui ir espreitar...

Pois, por aqui, há sempre um mercado ou uma feira aos fins de semana. E amanhã temos "Mercado Biológico"...











"Em todas as ruas..."


(foto de filipe's glance)

"Em todas as ruas te encontro 
em todas as ruas te perco 
conheço tão bem o teu corpo 
sonhei tanto a tua figura 
que é de olhos fechados que eu ando 
a limitar a tua altura 
e bebo a água e sorvo o ar 
que te atravessou a cintura 
tanto    tão perto    tão real 
que o meu corpo se transfigura 
e toca o seu próprio elemento 
num corpo que já não é seu 
num rio que desapareceu 
onde um braço teu me procura 

Em todas as ruas te encontro 
em todas as ruas te perco" 


(Mário Cesariny)

15 março 2012

"Memória de um pintor desconhecido..."





"Os presos contam os dias

eu as horas

nesta prisão maior onde um olhar ficou boiando

e uma voz um som de passos perseguidos
na sombra perseguindo a segurança
fugidia

Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas, cimento e energia
atômica indefeso entre irmãos de cárcere demando
a voz que foge os irmãos que não vejo
o brando olhar que guarda o meu desejo
e só consigo
ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas
à baioneta marcadas por uma sentinela
aos quatro cantos da janela
gradeada
do dia-
a-dia onde não há
mais nada

Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos
que há de nascer que há de florir que há de
e há de e há de
quando?"

(Mário Dionísio)

 

14 março 2012

La nostra famiglia...



Quando falei dos meus primeiros tempos por Florença (Como o tempo passa...), mencionei que no primeiro ano, partilhei esta fantástica cidade com um simpático grupo de portugueses...

Pois bem, hoje apetece-me falar um pouco mais, em particular, de alguns elementos desse grupinho... e que tiveram uma grande importância na minha adaptação e primeiras vivências por terras de Dante, elementos esses que passaram  a fazer parte da minha “árvore das amizades”.

Passado pouco tempo, apenas alguns dias, de eu ter chegado a Florença, chegou também a C., que eu já conhecia e com a qual já tinha uma certa ligação (havia lhe dado aulas, imaginem!!), e com a C. chegaram mais 3 portuguesas, e foram todas viver para a mesma casa...
Coitadas, no dia em que chegaram, exaustas e um pouco assustadas, diga-se de passagem, apareceu uma portuguesa maluca (eu) na casa delas, que não falava português há algum tempo, que estava também ela exausta da sua infrutífera busca de casa, e ao chegar lá, sem as conhecer, começa  a falar que nem uma louca durante mais de 30 minutos, sem parar... Não sei o que pensaram, mas desconfio que deve ter sido algo como: “Mas, quem é esta maluca?". Este foi o nosso primeiro contacto!

No início, e porque a vinda delas para esta cidade tinha um objectivo diferente, um espírito diferente, não convivemos muito. Para elas era tudo novo, ainda tinham mais para descobrir do que eu, que pelo menos já conhecia a cidade e falava italiano.

Mas, com o tempo, criou-se uma forte relação, principalmente com a C., a M. e a S.
Eram frequentes as jantaradas na “minha casinha de bonecas” ou no “estado de baco” (a casa delas), as caminhadas pela cidade, as típicas festas de Florença e nos arredores. As visitas que ambas iam recebendo e que partilhávamos, como se todas estivessem  a receber  a visita de parentes, mas parentes esses em comum.
Ou seja, nós éramos já como uma família, construímos aqui “la nostra famiglia”. E não sei bem quando, eu passei a ser a “mamma”, por ser a mais velha, por ser aquela a que recorriam (e ainda recorrem) em dúvidas e conselhos...

E assim ganhei três “filhotas”, três amigas, com as quais dividi tanto, neste país, nesta cidade, na minha casa...na nossa Specola. E com as quais mantenho contacto, com as quais ainda partilho, à distância, muito do que por aqui vai acontecendo, mais próxima de uma ou de outra...mas sei que estão lá todas na “minha árvore”...e que teremos para sempre “la nostra famiglia fiorentina”.

Recordo com alegria alguns dos nossos momentos, nomeadamente quando vinham até minha casa, unicamente para desfrutar dos meus livros (um em particular, que elas próprias me ofereceram), e simplesmente ficavam por ali a ler...

Desde que voltaram para Portugal, nunca mais tive oportunidade de estar com nenhuma delas, estamos sempre a pensar num grande reencontro, que na verdade, seria perfeito aqui na nossa cidade, nos nossos cantos, a recordar de forma nostálgica alguns episódios. Muitas vezes também me dá a nostalgia (como agora), e sinto a falta delas, apesar de ter tido sempre os meus hábitos individuais, que mantenho, tinha sempre associado, os nossos hábitos, os nossos momentos...

Até um possível reencontro, fica a recordação de todos estes momentos e como costumo dizer...”We’ ll always have Florence!”.

Ponte Vecchio...



É sem dúvida o “postal” de Florença, a imagem mais conhecida desta cidade. Todos os que  a visitam, querem tirar uma foto da, ou na Ponte vecchio...Eu própria, acho que a fotografo todas as semanas. Mas, como costumo dizer, é uma ponte muito fotogénica, e depois eu tenho o privilégio de passar na outra, na ponte Santa Trinitá e contemplar a “ponte fotogénica”...a diferentes horas do dia, com diferentes tonalidades, sob uma luz natural diferente, em dias de sol, em dias de chuva....E todos esses instantes são bons para a captar.
Como aqui disse, é também um ponto de contemplação e meditação!

Uma ponte que remonta a 1345, a mais antiga de Florença, inicialmente albergava as oficinas de carniceiros, curtidores e ferreiros (e que utilizavam o rio como escoadouro dos desperdícios), estes foram desalojados em 1593, por causa do ruído e do cheiro que provocavam. Reconstruiram-se as oficinas que foram ocupadas por ourives e as lojas que passaram a ladear o tabuleiro da ponte, continuam ainda hoje a especializar-se em joalharia antiga.

Esta ponte foi sempre amada por muitos, consta que Hitler, em 1944, ordenou que todas as pontes de Florença fossem destruídas, excepto a que ele mais amava...a Ponte Vecchio (para grande infelicidade do seu amigo Kriegbaum, que também nutria uma paixão por uma das pontes de Florença, mas a Santa Trinitá).

Pois bem, eu gosto muito de a contemplar e fotografar, mas o que eu gosto mesmo e de atravessá-la à noite, quando as portadas de madeira das lojas estão fechadas, e a ponte esta deserta! Pois nesse momento consigo viajar no tempo e sentir a antiguidade daquela ponte, sentir a sua genuinidade...
Durante o dia, por vezes gosto de atravessá-la para sentir o alucinante movimento, mas na maior parte do tempo fujo, daquela confusão, principalmente nos dias em que é necessário pedir licença, para conseguir passar...

Agora que a atravesso algumas vezes  à noite, em que sou apenas eu, uma ponte medieval e o rio Arno, consigo imaginar-me naquele ambiente, mas alguns séculos antes...E acreditem, à noite o interior desta ponte torna-se muito mais atraente. Se fechar os olhos, consigo ouvir os cascos de um cavalo na calçada, as luzes que a iluminam facilmente se transformam em archotes, e de uma das janelas do palácio em frente consigo ouvir o som de um Cravo, que delicia o serão de uma nobre família...
Quando volto a abrir os olhos, sinto o frio da noite, volto a caminhar depressa, para alcançar o meu prédio, que também já foi um palácio, e onde ainda hoje se ouve o som de um violino...