13 março 2012

"De tarde viera alguém com flores..."


"De tarde viera alguém com flores - lírios,
jacintos, narcisos, despedidas - a a porta ficara
aberta desde então. Agora as traças ciciavam

lá fora numa alegria turva em redor de uma
lâmpada; e, sobre o banco do alpendre, jazia um
livro aberto na mesma página fazia quase um dia.

Batia-me nos pulsos uma vida vencida; e, mesmo
que a terra apenas aguardasse o fulgor da manhã
para chamar pelo teu corpo, tive a certeza de que
era sobre o meu que  a noite eternamente se abatia"

(Maria do Rosário Pedreira)

Leituras....



Desde muito cedo, os livros começaram a fazer parte da minha vida, sempre foram e sempre serão muito importantes. O livro só em si é um objecto que me diz muito, que me atrai...Objecto esse essencial para mim, e quem me conhece percebe isso perfeitamente, pois os meus espaços, estão sempre recheados de livros. Sempre que posso, ou melhor, todos os dias eu preciso de ler algumas linhas, algumas páginas de um livro.
Normalmente, as minhas leituras eram feitas em casa, em sossego...Mas, desde que vim viver para Florença, adquiri um hábito que gosto particularmente, o hábito de ler em esplanadas, praças e jardins...

Quando o tempo o permite, passar alguns minutos do fim de semana a ler um bom livro, num agradável local, é muito aprazível.
Neste fim de semana, mais uma vez, o local eleito foi um jardim, um que fica relativamente próximo da minha casa, ondecostumo ir passear, caminhar, correr, ler ou simplesmente pensar... É um espaço onde me sinto bem, e ali fico a ler algumas páginas, absorvida pelo livro, mas por momentos gosto igualmente de parar, olhar em redor, ouvir as crianças que vibram com as suas brincadeiras, observar alguém que passa de bicicleta, sorrir ao ver dois cães que brincam...sentir o sol, ouvir o cantar dos pássaros, e depois voltar ao meu livro...



12 março 2012

Por estes dias...



Por estes dias, as minha caminhadas pela cidade, reflectiram ainda alguns sinais de Inverno, mas os detalhes que mais me atraíram foram as, cada vez mais evidentes, pinceladas da Primavera... Começo a ser um pouco repetitiva, mas só pode ser a  vontade que tenho que cheguem os dias quentes, o sol, as flores, os perfumes e os sons desta estação que tanto me diz...






11 março 2012

Feira de Antiguidades, Velharias...e afins..



Nos segundo domingo de cada mês, a Piazza Santo Spirito, transforma-se numa mega feira de antiguidades e velharias, exactamente como aconteceu hoje! Não sei se a feira tem algum nome particular, mas eu gosto de lhe chamar assim, e é mais uma daquelas feiras que esta praça me proporciona e onde eu gosto de me “perder”...

Agora que já se sente um perfume primaveril e os dias estão mais agradáveis, gosto de começar este domingo, numa das esplanadas da praça, a  beber um cappuccino, a ler algumas páginas de um bom livro e a apreciar o movimento.
Após este agradável ritual, e acompanhada da minha maquina fotográfica deleito-me a apreciar cada banca e a fotografar alguns pormenores que me chamem à atenção.

Há imensos objectos que me seduzem, pois desde muito cedo comecei a desenvolver um gosto por objectos antigos, objectos que fui também adquirindo ao longo do tempo...Aqui, não posso fazer grandes aquisições, mas muitas vezes, encontro frascos para a minha colecção de "frascos de laboratório e farmácia" (colecção e paixão que partilho com uma pessoa especial). Outra das minhas colecções, são chaves antigas, mas essa é muito mais difícil de satisfazer...

Nesta mensal e fiorentina feira de velharias,  já fico muito satisfeita só pelo facto de poder passar algumas horas a deambular e fotografar por cada banca. 
E numa feira deste género, normalmente existe sempre um espaço (ou mais do que um) para livros e discos, que é onde fico sempre mais tempo, a tentar encontrar algumas raridades...
É necessário ter muita paciência e saber escolher, pois existe de tudo um pouco, muitas e preciosas antiguidades, não estivesse em Florença, mas também simples velharias, que para muitos não tem qualquer valor, mas para outros podem ter alguma utilidade, ou simplesmente para coleccionar.

Como já começa a ser hábito, em cada um dos meus passeios por Florença, há sempre um pormenor que me faz lembrar alguém, e é como se essa pessoa estivesse comigo naquele momento...
Aqui, nesta feira, costumo pensar que a partilho, ainda que só em pensamento com duas senhoras muito especiais, a que me ensinou a apreciar antiguidades e a que partilha comigo também esta paixão e colecciona “frasquinhos”. Hoje, mais uma vez, lá estiveram as duas comigo...e, adquirimos uns frasquitos e mais umas pequenas ofertas!











"Poema da despedida..."

(foto de filipe's glance)


"Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo."



(Mia Couto)

10 março 2012

"Aqui os búzios sopram mentiras sobre o mar..."


"Aqui os búzios sopram mentiras sobre o mar
nos meus ouvidos; e dizem que, uma noite,
uma onda veio buscar a tua voz e a levou para tão longe
e por tanto tempo que, na manhã seguinte, ao acordar,
eu a tinha esquecido como a um sonho. Mas

que antes disso (de madrugada, em suma) - quando
eu sonhava o que já não recordaria - cem anjos
estenderam outra onda até meio da praia
e nela se sentaram quietos a vigiar as sombras até

que se lembraram de roubar-te as pegadas e
de as guardar sob as asas (como os meninos que
apanham conchas na maré-vazia). E levando-as se foram
então daqui ao primeiro sol, vogando no dorso prateado
das nuvens, deixando a praia fria e deserta como agora.

Mas eu não regressei a este lugar para ouvir lendas
nem escutar os recados do silêncio. E, se pressinto
que a casa está trancada, não há-de ser senão
para evitar que nela se vinguem os ventos do seu tédio
de verão. Porque lá dentro haverá, como sempre, mantas
de xadrez aos pés da cama, e uma chaleira pousada
no fogão, e uma lata de café que conserva o perfume
de um continente solar onde se plantam sonhos,
e livros marcados com bilhetes de amor, e memórias,
e lenha (tanta) para queimar todas as mentiras."

(Maria do Rosário Pedreira)

09 março 2012

"Daqui a nada fica de noite..."


"Daqui a nada fica de noite e nós ainda não vimos o dia

Não vimos o amanhecer
Não deixámos que entrasse no nosso peito e na nossa fé

Daqui a nada fica de noite
Se calhar muito antes de vermos anoitecer
Com este olhos mortais
Que se prendem ao que não é essencial
Que se ofuscam ante as evidências
Que se negam às intuições

Daqui a nada fica de noite
Se calhar anoiteceu no dia em perdemos a esperança
Se calhar ao duvidar acelerámos a noite
Que tudo engole
Que é derradeira

Daqui a nada fica de noite
E nós andámos sem andar
Olhámos mas não vimos nada
Falámos mas não conversámos

Daqui a nada fica de noite
E tanta vida passou pela janela
E nós nem afastámos o cortinado
Pelo menos para a ver
Pelo menos para a sentir entrar pelos nossos pulmões
E enchê-los … enchê-los … enchê-los …
Como a respirar a vida primordial
Como se ela passasse e se ligasse de novo a nós
Como se os olhos vissem pela vez primeira
Como se os sons fossem aprendidos de novo
Como se a pele voltasse a sentir cada carícia

Daqui a nada fica de noite
E Nós?"

(Marta Mondragão)

08 março 2012

"Despedida..."



"Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos
quando anunciaste a despedida
e eu que habitara lugares secretos
e me embriagara com os teus gestos
recolhi as palavras vagabundas
como a tempestade que engole os barcos
porque ama os pescadores

Impossível separarmo-nos
agora que gravaste o teu sabor
sobre o súbito
e infinito parto do tempo

Por isso te toco
no grão e na erva
e na poeira da luz clara
a minha mão
reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira
exausto
e desfila entre mercados e ruas
eu escuto sempre a voz que é tua
e que dos lábios
se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam
os corpos dos amantes
o te ventre aceitou a gota inicial
e um novo habitante
enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar
encostámos os nossos lábios
à funda circulação do sangue
porque me amavas
eu acreditava ser todos os homens
comandar o sentido das coisas
afogar poentes
despertar séculos à frente
e desenterrar o céu
para com ele cobrir
os teus seios de neve"

(Mia Couto)

"Duffy - The Photographic Genius"

"The thing about the photograph is that there's no smell or sound and in a sense it tells the truth and yet it is a lie"


Vogue, Firenze, 1962

Brian Duffy (1933-2010), conhecido por ter sido um jovem talento anarquista, abrasivo e provocador, o grande fotografo dos anos 60 e 70. Fotografo de moda para grandes revistas como a Vogue (introduziu um novo estilo na fotografia de moda), foi igualmente o fotografo das estrelas de cinema e da música. Desde Sidney Poitier, Jane Birkin, Black Sabbath, Frankie Miller, Blondie, John Lennon e Paul McCartney e sobretudo David Bowie. Mas a lista não termina aqui...

As fotos de Duffy são completamente engenhosas, e tendo em conta que foram produzidas muito antes da pós-produção digital, revelam um profundo conhecimento da fotografia!

No passado fim de semana, conheci um pouco do trabalho deste génio da fotografia, na exposição "Duffy - The Photographic Genius" que se encontra no Museu Nazionale Alinari della Fotografia.
E acompanhei essa exposição com o visionamento do documentário que a BBC lhe dedicou em 2010, "The man who shot the sixties".



Queen Magazine, Love, 1968

Jean Shrimpton, 1963

David Bowie, Scary Monsters, 1980

07 março 2012

Amizades...



Por vezes gosto de pensar nas amizades, como os ramos de uma árvore...há aqueles grandes, que se vêem muito bem, os que estão sempre presentes. Depois há aqueles, mais pequenos, que muitas vezes nem se vêem, mas estão lá sempre,  um pouco mais distantes, os quais só precisamos de estar mais atentos para os ver...


Quando cheguei a Florença, já conhecia algumas das pessoas, com que ia conviver e trabalhar. Mas, como aqui referi, muitas foras as caras e novas pessoas que se cruzaram na minha vida nos primeiros tempos…

Na primeira semana, conheci a M. , uma simpática Australiana e a E., uma Inglesa super enérgica (a irmã gémea, loira, separada a nascença de uma grande amiga minha), que me fizeram imensa companhia e com as quais partilhei a minha aventura na “busca de casa”...
E é incrível, como duas pessoas, com as quais simplesmente partilhei alguns momentos, me marcaram tanto, e são sem duvida duas pessoas que guardarei para sempre na minha mente com um carinho muito especial. Infelizmente com a E. nunca mais tive contacto.
Mas, com a M., falamos pelo menos uma vez por ano, pois também foi com ela que surgiu uma maior e imediata empatia. Mal nos tínhamos conhecido e já partilhávamos histórias de vida e sonhos...parecia que nos conhecíamos desde sempre!
Ontem, falei novamente com ela, e foi muito agradável, não falávamos há muitos meses, e ficamos a recordar o tempo que passou desde que nos conhecemos, a recordar conversas que partilhámos....e mais uma vez, a dividir sonhos e a contar como tem sido as nossas vidas nestes último meses.
E é inexplicável, como consigo falar com ela como se fossemos velhas amigas de infância, e como se falássemos quase todos os dias,  uma pessoa que não sei se vou voltar a encontrar...

A M. é um daqueles ramos da minha árvore da Amizade, um pequeno, que raramente se consegue ver, mas que está sempre lá, sempre disposta a ouvir as minhas histórias, a contar as suas longas viagens (recentemente fez uma longa viagem por toda a América do Sul, e actualmente vive no Canada), a rir e a partilhar sonhos...Só é preciso, nunca me esquecer que esse ramo existe, está lá bem escondido, e que é necessário “olhar” para ele de vez em quando.