11 março 2012

Feira de Antiguidades, Velharias...e afins..



Nos segundo domingo de cada mês, a Piazza Santo Spirito, transforma-se numa mega feira de antiguidades e velharias, exactamente como aconteceu hoje! Não sei se a feira tem algum nome particular, mas eu gosto de lhe chamar assim, e é mais uma daquelas feiras que esta praça me proporciona e onde eu gosto de me “perder”...

Agora que já se sente um perfume primaveril e os dias estão mais agradáveis, gosto de começar este domingo, numa das esplanadas da praça, a  beber um cappuccino, a ler algumas páginas de um bom livro e a apreciar o movimento.
Após este agradável ritual, e acompanhada da minha maquina fotográfica deleito-me a apreciar cada banca e a fotografar alguns pormenores que me chamem à atenção.

Há imensos objectos que me seduzem, pois desde muito cedo comecei a desenvolver um gosto por objectos antigos, objectos que fui também adquirindo ao longo do tempo...Aqui, não posso fazer grandes aquisições, mas muitas vezes, encontro frascos para a minha colecção de "frascos de laboratório e farmácia" (colecção e paixão que partilho com uma pessoa especial). Outra das minhas colecções, são chaves antigas, mas essa é muito mais difícil de satisfazer...

Nesta mensal e fiorentina feira de velharias,  já fico muito satisfeita só pelo facto de poder passar algumas horas a deambular e fotografar por cada banca. 
E numa feira deste género, normalmente existe sempre um espaço (ou mais do que um) para livros e discos, que é onde fico sempre mais tempo, a tentar encontrar algumas raridades...
É necessário ter muita paciência e saber escolher, pois existe de tudo um pouco, muitas e preciosas antiguidades, não estivesse em Florença, mas também simples velharias, que para muitos não tem qualquer valor, mas para outros podem ter alguma utilidade, ou simplesmente para coleccionar.

Como já começa a ser hábito, em cada um dos meus passeios por Florença, há sempre um pormenor que me faz lembrar alguém, e é como se essa pessoa estivesse comigo naquele momento...
Aqui, nesta feira, costumo pensar que a partilho, ainda que só em pensamento com duas senhoras muito especiais, a que me ensinou a apreciar antiguidades e a que partilha comigo também esta paixão e colecciona “frasquinhos”. Hoje, mais uma vez, lá estiveram as duas comigo...e, adquirimos uns frasquitos e mais umas pequenas ofertas!











"Poema da despedida..."

(foto de filipe's glance)


"Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo."



(Mia Couto)

10 março 2012

"Aqui os búzios sopram mentiras sobre o mar..."


"Aqui os búzios sopram mentiras sobre o mar
nos meus ouvidos; e dizem que, uma noite,
uma onda veio buscar a tua voz e a levou para tão longe
e por tanto tempo que, na manhã seguinte, ao acordar,
eu a tinha esquecido como a um sonho. Mas

que antes disso (de madrugada, em suma) - quando
eu sonhava o que já não recordaria - cem anjos
estenderam outra onda até meio da praia
e nela se sentaram quietos a vigiar as sombras até

que se lembraram de roubar-te as pegadas e
de as guardar sob as asas (como os meninos que
apanham conchas na maré-vazia). E levando-as se foram
então daqui ao primeiro sol, vogando no dorso prateado
das nuvens, deixando a praia fria e deserta como agora.

Mas eu não regressei a este lugar para ouvir lendas
nem escutar os recados do silêncio. E, se pressinto
que a casa está trancada, não há-de ser senão
para evitar que nela se vinguem os ventos do seu tédio
de verão. Porque lá dentro haverá, como sempre, mantas
de xadrez aos pés da cama, e uma chaleira pousada
no fogão, e uma lata de café que conserva o perfume
de um continente solar onde se plantam sonhos,
e livros marcados com bilhetes de amor, e memórias,
e lenha (tanta) para queimar todas as mentiras."

(Maria do Rosário Pedreira)

09 março 2012

"Daqui a nada fica de noite..."


"Daqui a nada fica de noite e nós ainda não vimos o dia

Não vimos o amanhecer
Não deixámos que entrasse no nosso peito e na nossa fé

Daqui a nada fica de noite
Se calhar muito antes de vermos anoitecer
Com este olhos mortais
Que se prendem ao que não é essencial
Que se ofuscam ante as evidências
Que se negam às intuições

Daqui a nada fica de noite
Se calhar anoiteceu no dia em perdemos a esperança
Se calhar ao duvidar acelerámos a noite
Que tudo engole
Que é derradeira

Daqui a nada fica de noite
E nós andámos sem andar
Olhámos mas não vimos nada
Falámos mas não conversámos

Daqui a nada fica de noite
E tanta vida passou pela janela
E nós nem afastámos o cortinado
Pelo menos para a ver
Pelo menos para a sentir entrar pelos nossos pulmões
E enchê-los … enchê-los … enchê-los …
Como a respirar a vida primordial
Como se ela passasse e se ligasse de novo a nós
Como se os olhos vissem pela vez primeira
Como se os sons fossem aprendidos de novo
Como se a pele voltasse a sentir cada carícia

Daqui a nada fica de noite
E Nós?"

(Marta Mondragão)

08 março 2012

"Despedida..."



"Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos
quando anunciaste a despedida
e eu que habitara lugares secretos
e me embriagara com os teus gestos
recolhi as palavras vagabundas
como a tempestade que engole os barcos
porque ama os pescadores

Impossível separarmo-nos
agora que gravaste o teu sabor
sobre o súbito
e infinito parto do tempo

Por isso te toco
no grão e na erva
e na poeira da luz clara
a minha mão
reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira
exausto
e desfila entre mercados e ruas
eu escuto sempre a voz que é tua
e que dos lábios
se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam
os corpos dos amantes
o te ventre aceitou a gota inicial
e um novo habitante
enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar
encostámos os nossos lábios
à funda circulação do sangue
porque me amavas
eu acreditava ser todos os homens
comandar o sentido das coisas
afogar poentes
despertar séculos à frente
e desenterrar o céu
para com ele cobrir
os teus seios de neve"

(Mia Couto)

"Duffy - The Photographic Genius"

"The thing about the photograph is that there's no smell or sound and in a sense it tells the truth and yet it is a lie"


Vogue, Firenze, 1962

Brian Duffy (1933-2010), conhecido por ter sido um jovem talento anarquista, abrasivo e provocador, o grande fotografo dos anos 60 e 70. Fotografo de moda para grandes revistas como a Vogue (introduziu um novo estilo na fotografia de moda), foi igualmente o fotografo das estrelas de cinema e da música. Desde Sidney Poitier, Jane Birkin, Black Sabbath, Frankie Miller, Blondie, John Lennon e Paul McCartney e sobretudo David Bowie. Mas a lista não termina aqui...

As fotos de Duffy são completamente engenhosas, e tendo em conta que foram produzidas muito antes da pós-produção digital, revelam um profundo conhecimento da fotografia!

No passado fim de semana, conheci um pouco do trabalho deste génio da fotografia, na exposição "Duffy - The Photographic Genius" que se encontra no Museu Nazionale Alinari della Fotografia.
E acompanhei essa exposição com o visionamento do documentário que a BBC lhe dedicou em 2010, "The man who shot the sixties".



Queen Magazine, Love, 1968

Jean Shrimpton, 1963

David Bowie, Scary Monsters, 1980

07 março 2012

Amizades...



Por vezes gosto de pensar nas amizades, como os ramos de uma árvore...há aqueles grandes, que se vêem muito bem, os que estão sempre presentes. Depois há aqueles, mais pequenos, que muitas vezes nem se vêem, mas estão lá sempre,  um pouco mais distantes, os quais só precisamos de estar mais atentos para os ver...


Quando cheguei a Florença, já conhecia algumas das pessoas, com que ia conviver e trabalhar. Mas, como aqui referi, muitas foras as caras e novas pessoas que se cruzaram na minha vida nos primeiros tempos…

Na primeira semana, conheci a M. , uma simpática Australiana e a E., uma Inglesa super enérgica (a irmã gémea, loira, separada a nascença de uma grande amiga minha), que me fizeram imensa companhia e com as quais partilhei a minha aventura na “busca de casa”...
E é incrível, como duas pessoas, com as quais simplesmente partilhei alguns momentos, me marcaram tanto, e são sem duvida duas pessoas que guardarei para sempre na minha mente com um carinho muito especial. Infelizmente com a E. nunca mais tive contacto.
Mas, com a M., falamos pelo menos uma vez por ano, pois também foi com ela que surgiu uma maior e imediata empatia. Mal nos tínhamos conhecido e já partilhávamos histórias de vida e sonhos...parecia que nos conhecíamos desde sempre!
Ontem, falei novamente com ela, e foi muito agradável, não falávamos há muitos meses, e ficamos a recordar o tempo que passou desde que nos conhecemos, a recordar conversas que partilhámos....e mais uma vez, a dividir sonhos e a contar como tem sido as nossas vidas nestes último meses.
E é inexplicável, como consigo falar com ela como se fossemos velhas amigas de infância, e como se falássemos quase todos os dias,  uma pessoa que não sei se vou voltar a encontrar...

A M. é um daqueles ramos da minha árvore da Amizade, um pequeno, que raramente se consegue ver, mas que está sempre lá, sempre disposta a ouvir as minhas histórias, a contar as suas longas viagens (recentemente fez uma longa viagem por toda a América do Sul, e actualmente vive no Canada), a rir e a partilhar sonhos...Só é preciso, nunca me esquecer que esse ramo existe, está lá bem escondido, e que é necessário “olhar” para ele de vez em quando.

"Il mio unico pensiero sei tu..."




"Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste."



(Nuno Júdice)

06 março 2012

Vizinhos...

(fotografia de um postal)

Ainda  no seguimento de “Home sweet home”...aproveito para falar um pouco dos meus vizinhos...

O meu cantinho, a minha casa aqui em Florença, encontra-se num antigo prédio, numa rua onde ilustres viveram (Brownings, Bianca Cappello...), um prédio muito bem localizado! A localização é sem duvida um dos motivos pelo qual lá continuo...

Nesse antigo prédio, existem vizinhos, como em todos os prédios, mas durante muito tempo, eu não fazia ideia quem eram os meu vizinhos, pois eu entrava e saia várias vezes e nunca me cruzava com nenhum deles. 

Num dos primeiros dias (quando para lá fui viver), ao descer as escadas, ouvi o som de um Violino, o que me fez sorrir e aproximar o ouvido a uma das portas... Fique, pelo menos, a saber que tinha um(a) vizinho(a) que era músico.

Depois, finalmente conheci a vizinha do lado, muito simpática e bem disposta, com quem trocava meia dúzia de palavras, se ocasionalmente nos encontrávamos.  Até que essa vizinha se mudou. E para a porta do lado, veio o “vizinho sorridente”, pois é a imagem que guardo dele, sempre a sorrir, somente, nem um “Ciao!”...nem um “Buongiorno!”... Nada, apenas um sorriso! Sei agora, que também o “vizinho sorridente” se mudou.
Na porta em frente, tenho o “vizinho previdente”, aquele que nunca vejo, mas sei sempre quando chega ou quando vai sair, pois fecha e abre o contador da água, que fica na parede da minha cozinha, e assim posso “controlar” as suas chegadas e saídas.
Também sei, que por algum tempo, tive um bebé no prédio, que se fazia sentir a plenos pulmões. Mas nunca mais o ouvi...

E, por algum tempo debrucei-me sobre o mistério do 3º andar. O prédio tem três andares, no elevador existe o botão com o número 3, mas as escadas terminam à minha porta, e quando eu clicava no botão 3 do elevador, nada acontecia...
Um dia, perguntei ao senhorio, que não me sabia dizer nada, e eu afirmava que já tinha feito a experiência do elevador. E ele muito admirado! Depois alguém me explicou que deveria haver uma chave ou um código, que permitisse entrada directa para o 3ºandar....
E quando não há luz... E quando o elevador está avariado...Como chegam ou saiem de casa, os vizinhos do 3º andar?

Ao fim de todo este tempo, não sei o que está a acontecer, mas só na semana passada, cruzei-me com vários vizinhos diferentes, todos os dias. Foi então que conheci a vizinha que toca violino (só passado dois anos!), uma simpática japonesa, que me prometeu apresentar o seu vizinho da Indonésia e ainda a possibilidade de irmos beber um café, num destes dias...

Fico então à espera do prometido café, de conhecer o novo vizinho que veio da Indonésia...e desvendar melhor o mistério do 3º andar!

05 março 2012

"Se partires, não me abraces..."



"Se partires, não me abraces - a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces -

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar) ; e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas."



(Maria do Rosario Pedreira)