07 março 2012

"Il mio unico pensiero sei tu..."




"Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste."



(Nuno Júdice)

06 março 2012

Vizinhos...

(fotografia de um postal)

Ainda  no seguimento de “Home sweet home”...aproveito para falar um pouco dos meus vizinhos...

O meu cantinho, a minha casa aqui em Florença, encontra-se num antigo prédio, numa rua onde ilustres viveram (Brownings, Bianca Cappello...), um prédio muito bem localizado! A localização é sem duvida um dos motivos pelo qual lá continuo...

Nesse antigo prédio, existem vizinhos, como em todos os prédios, mas durante muito tempo, eu não fazia ideia quem eram os meu vizinhos, pois eu entrava e saia várias vezes e nunca me cruzava com nenhum deles. 

Num dos primeiros dias (quando para lá fui viver), ao descer as escadas, ouvi o som de um Violino, o que me fez sorrir e aproximar o ouvido a uma das portas... Fique, pelo menos, a saber que tinha um(a) vizinho(a) que era músico.

Depois, finalmente conheci a vizinha do lado, muito simpática e bem disposta, com quem trocava meia dúzia de palavras, se ocasionalmente nos encontrávamos.  Até que essa vizinha se mudou. E para a porta do lado, veio o “vizinho sorridente”, pois é a imagem que guardo dele, sempre a sorrir, somente, nem um “Ciao!”...nem um “Buongiorno!”... Nada, apenas um sorriso! Sei agora, que também o “vizinho sorridente” se mudou.
Na porta em frente, tenho o “vizinho previdente”, aquele que nunca vejo, mas sei sempre quando chega ou quando vai sair, pois fecha e abre o contador da água, que fica na parede da minha cozinha, e assim posso “controlar” as suas chegadas e saídas.
Também sei, que por algum tempo, tive um bebé no prédio, que se fazia sentir a plenos pulmões. Mas nunca mais o ouvi...

E, por algum tempo debrucei-me sobre o mistério do 3º andar. O prédio tem três andares, no elevador existe o botão com o número 3, mas as escadas terminam à minha porta, e quando eu clicava no botão 3 do elevador, nada acontecia...
Um dia, perguntei ao senhorio, que não me sabia dizer nada, e eu afirmava que já tinha feito a experiência do elevador. E ele muito admirado! Depois alguém me explicou que deveria haver uma chave ou um código, que permitisse entrada directa para o 3ºandar....
E quando não há luz... E quando o elevador está avariado...Como chegam ou saiem de casa, os vizinhos do 3º andar?

Ao fim de todo este tempo, não sei o que está a acontecer, mas só na semana passada, cruzei-me com vários vizinhos diferentes, todos os dias. Foi então que conheci a vizinha que toca violino (só passado dois anos!), uma simpática japonesa, que me prometeu apresentar o seu vizinho da Indonésia e ainda a possibilidade de irmos beber um café, num destes dias...

Fico então à espera do prometido café, de conhecer o novo vizinho que veio da Indonésia...e desvendar melhor o mistério do 3º andar!

05 março 2012

"Se partires, não me abraces..."



"Se partires, não me abraces - a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces -

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar) ; e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas."



(Maria do Rosario Pedreira)

Do fim de semana...

Agora que o frio parece ter dado descanso e que os dias estão mais luminosos, algum do tempo do fim de semana foi aproveitado a passear pela cidade... 
E ainda houve tempo para voltar ao Museu da Fotografia, desta vez com o objectivo de ver uma exposição temporária - "Duffy, The Photographic Genius".








"Duffy - The Photographic Genius"

04 março 2012

"Aprendizagem da Primavera..."


E se é a despedida das desnudas árvores, também é a chegada de novos rebentos, que anunciam o regresso da Primavera...





"Depois
 a mulher deitou-se

A sombra da terra
 tombou sobre o céu

Não sei o que te invento
 se amo mesmo quando não és

Não sei o que te amo
 se te invento como és

Palavras que voltam
 se não voltas
 Cega-nos a mesma noite
 o mesmo suspiro
 de duas mãos entrelaçadas"

(Mia Couto)

"Árvore..."

E porque nesta cidade já se sente o perfume e os sons da Primavera, não tarda estas árvores despidas vão voltar a florir, vão voltar a usar os seus frondosos vestidos.
Como tal, aqui fica a despedida destas desnudas árvores…










"cego
de ser raíz

imóvel
de me ascender caule

múltiplo
de ser folha

aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo"

(Mia Couto)

03 março 2012

"Poema para Galileo..."


"Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, 
aquele teu retrato que toda a gente conhece, 
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce 
sobre um modesto cabeção de pano. 
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença. 
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício. 
Disse Galeria dos Ofícios.) 
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença. 
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria… 
Eu sei… Eu sei… 
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia. 
Ai que saudade, Galileo Galilei! 

Olha. Sabes? Lá em Florença 
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário. 
Palavra de honra que está! 
As voltas que o mundo dá! 
Se calhar até há gente que pensa 
que entraste no calendário. 

Eu queria agradecer-te, Galileo, 
a inteligência das coisas que me deste. 
Eu, 
e quantos milhões de homens como eu 
a quem tu esclareceste, 
ia jurar – que disparate, Galileo! 
– e jurava a pés juntos e apostava a cabeça 
sem a menor hesitação – 
que os corpos caem tanto mais depressa 
quanto mais pesados são. 

Pois não é evidente, Galileo? 
Quem acredita que um penedo caia 
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia? 

Esta era a inteligência que Deus nos deu. 

Estava agora a lembrar-me, Galileo, 
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo 
e tinhas à tua frente 
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo 
a olharem-te severamente. 
Estavam todos a ralhar contigo, 
que parecia impossível que um homem da tua idade 
e da tua condição, 
se tivesse tornado num perigo 
para a Humanidade 
e para a Civilização. 
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios, 
e percorrias, cheio de piedade, 
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios. 

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas 
e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las –, 
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas. 
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual 
conforme suas eminências desejavam, 
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal 
e que os astros bailavam e entoavam 
à meia-noite louvores à harmonia universal. 
E juraste que nunca mais repetirias 
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma, 
aquelas abomináveis heresias 
que ensinavas e escrevias 
para eterna perdição da tua alma. 
Ai Galileo! 
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo, 
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços, 
andavam a correr e a rolar pelos espaços 
à razão de trinta quilómetros por segundo. 
Tu é que sabias, Galileo Galilei. 
Por isso eram teus olhos misericordiosos, 
por isso era teu coração cheio de piedade, 
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos 
a quem Deus dispensou de buscar a verdade. 
Por isso estoicamente, mansamente, 
resististe a todas as torturas, 
a todas as angústias, a todos os contratempos, 
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas, 
foram caindo, 
caindo, 
caindo, 
caindo, 
caindo sempre, 
e sempre, 
ininterruptamente, 
na razão directa do quadrado dos tempos." 

(António Gedeão)

29 fevereiro 2012

"Aaron's Rod" - Florence...

foto de filipe's glance


"The very afternoon after Aaron's arrival in Florence the sky became dark, the wind cold, and rain began steadily to fall. He sat in his big, bleak room above the river, and watched the pale green water fused with yellow, the many-threaded streams fuse into one, as swiftly the surface flood came down from the hills. Across, the dark green hills looked darker in the wet, the umbrella pines held up in vain above the villas. But away below, on the Lungarno, traffic rattled as ever. (...)"

(D. H. Lawrence)

28 fevereiro 2012

"The Italian Journey" - Roma...


foto de filipe's glance

No seu "The Italian Journey", Goethe apresenta a sua longa e descritiva viagem por Itália, às vezes também eu fico com  vontade de descrever algumas das minhas viagens e passeios por Itália...

Uma dessas viagens, não foi uma novidade, foi um  interessante regresso à Cidade Eterna, apenas por algumas horas (apenas de passagem), no último dia de umas agradáveis e revigorantes férias.

Quando apenas sem tem algumas horas e a cidade de Roma tem muito para oferecer, há que saber seleccionar de forma adequada, e como estava acompanhada por um "novato", saber como apresentar e despertar a curiosidade para uma nova e alargada visita.

Roma é uma cidade ideal para se visitar a pé (por mim, visitava sempre tudo a pé), pois os principais monumentos, museus e igrejas encontram-se suficientemente perto uns dos outros. E para onde quer que olhemos, podemos deparar-nos com um pormenor pitoresco que agrada a maioria dos seus visitantes. Como dizia Goethe, “a cada passo um palácio, uma ruína, um jardim, um deserto, uma pequena casa, um estábulo, um arco triunfal, uma arcada, e todos tão próximos que os poderíamos desenhar numa pequena folha de papel”.

De mapa na mão, iniciámos o percurso próximo da Basílica de Santa Maria Maggiore, com o intuito de percorrer os principais vestígios de história e o labirinto de ruas cheias de vida, que também merecem particular atenção.

Assim, a primeira paragem, na nossa fabulosa viagem no tempo, foi o Colosseo, o símbolo mais famoso da cidade,  construído no século I como um presente para os Romanos. E ainda próximo deste imponente monumento, algumas vistas sobre as ruínas do Foro Romano e do Palatino.
Como é obvio, não descuidámos a passagem pela espantosa e extravagante Fontana de Trevi, de modo a apreciar a imponência e o brilho de Neptuno, mas sem atirar a moedinha e pedir desejos. Da primeira vez que passei por Roma, não coloquei em prática este tradicional hábito, e mesmo assim regressei a esta capital, da segunda não quis deixar de o fazer, pois nunca se sabe, além de pedir para regressar, aproveitei e pedi mais alguns desejos, devo dizer que todos eles se realizaram, ou porque assim tinha de ser ou porque Neptuno assim o quis, isso já não sei.  Mas como já tive a fortuna de ver alguns dos meus sonhos realizados e encontrava-me na companhia de um deles, não foi necessário voltar  a faze-lo, para não abusar da boa vontade dos deuses.
E para finalizar o dia, nada como passar algum tempo numa explanada a observar músicos, artistas e turistas. Esse tempo foi desfrutado na admirável Piazza Navonna, considerada uma das mais belas praças do mundo (eu concordo, apesar do meu gosto duvidoso, segundo a minha companhia...),  que deve a sua forma alongada ao antigo estádio romano sobre o qual foi construída.  E cuja principal atracção é a espectacular Fontana dei Quattro Fiume, de Bernini, representando simbolicamente o rio Ganges, Danúbio, Prata e Nilo.

Mas o dia não está terminado sem uma boa cena, que se realizou na enoteca Cul de Sac, com uns Raviole de Laranja e um vinho branco, mas o melhor ... as promessas e sonhos de voltar à cidade Eterna, para apreciar com mais atenção cada pormenor pitoresco, escutar o chamamento da água de cada uma das fontes, sentir o aroma e perfume de cada rua e ruela, degustar os doces gelados e assimilar séculos e séculos de história.



27 fevereiro 2012

Príncipe...



“Chamei-te príncipe...
Vezes sem conta...
Saboreando cada letra
Assumindo cada uma a tua forma, o teu cheiro, os teus lábios ...
O meu príncipe de olhos verdes
O meu príncipe de olhos mágicos
E não és um príncipe.
Um príncipe é uma promessa de homem,
E tu não és uma promessa.
És uma certeza.
Um homem de verdade.
Continuas a ser mágico porque só a magia do amor é verdadeira.
És real, sei quem és e isso ainda te torna mais tu.
Somos mais porque existe um novo coração que passou a bater quando passamos a ser nós.”

(Marta Mondragão)