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11 outubro 2013

Outono...


" (...) Vinha, por fim, o outono certo: o ar tornava-se frio de vento; soavam folhas num tom seco, ainda que não fossem folhas secas; toda a terra tomava a cor e a forma impalpável de um paul incerto. Descobria-se o que fora sorriso último, num cansaço de pálpebras, numa indiferença de gestos. E assim tudo quanto sente, ou supomos que sente, apertava, íntima, ao peito a sua própria despedida (...)"

(Fernando Pessoa in Desassossego)



09 outubro 2013

"Se deste Outono..."


"Se deste outono uma folha,

apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria."

(Eugénio de Andrade)

08 outubro 2013

"Choro pelo que não fiz..."



"Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.

Vim para amar neste mundo, 

e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores

pelas areias do chão, 

se havia gente dormindo 
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!

Choro pelo que não fiz.

E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles 
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono 

voante pelo jardim.

Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão..."

(Cecília Meireles)

01 outubro 2013

"O silêncio das tardes de Outono..."



"Amo o silêncio das tardes cinzas de outono 
o desenho das aves gravados no céu,
amo andar por estes caminhos, entre árvores
a balançar na brisa que vem do mar...
Amo as horas paradas do tempo em
que o mundo parece ter estacionado numa praia,
onde as ondas fazem graça na areia branca.

Amo as tardes com suas aragens frias,
que buscam seu agasalho na alma,
amo o verde esperança das matas,
o azul pacífico das inquietas águas,
a natureza de tantas cores da ilha,
as mil cores imaginadas e vividas,
cores de doçura e de força,
numa prece que é pura natureza."

(Sonia Scmorantz)

06 agosto 2013

"Por detrás de cada flor..."



"Por detrás de cada flor
há um homem de chapéu de coco e sobrolho carregado.
Podia estar à frente ou estar ao lado,
mas não, está colocado
exactamente por detrás da flor.
Também não está escondido nem dissimulado,
está dignamente especado
por detrás da flor.
Abro as narinas para respirar
o perfume da flor,
não de repente
(é claro) mas devagar,
a pouco e pouco,
com os olhos postos no chapéu de coco.
Ele ama-me. Defende-me com os seus carinhos,
protege-me com o seu amor.
Ele sabe que a flor pode ter espinhos,
ou tem mesmo,
ou já teve,
ou pode vir a ter,
e fica triste se me vê sofrer.
Transmito um pensamento à flor
sem mover a cabeça e sem a olhar
De repente,
como um cão cínico arreganho o dente
e engulo-a sem mastigar."

(António Gedeão)

12 julho 2013

"O meu olhar é nítido como um girassol..."




    "O meu olhar é nítido como um girassol.
    Tenho o costume de andar pelas estradas
    Olhando para a direita e para a esquerda,
    E de vez em quando olhando para trás...
    E o que vejo a cada momento
    É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
    E eu sei dar por isso muito bem...
    Sei ter o pasmo essencial
    Que tem uma criança se, ao nascer,
    Reparasse que nascera deveras...
    Sinto-me nascido a cada momento
    Para a eterna novidade do Mundo...

    Creio no mundo como num malmequer,
    Porque o vejo. Mas não penso nele
    Porque pensar é não compreender...


    O Mundo não se fez para pensarmos nele
    (Pensar é estar doente dos olhos)
    Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...


    Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
    Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
    Mas porque a amo, e amo-a por isso
    Porque quem ama nunca sabe o que ama
    Nem sabe por que ama, nem o que é amar...


    Amar é a eterna inocência,
    E a única inocência não pensar..."



    (Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914)



13 junho 2013

" A Papoila Inteligente..."


"Renego, lápis partido, 
Tudo quanto desejei. 
E nem sonhei ser servido 
Para onde nunca irei.
Pajem metido em farrapos 

Da glória que outros tiveram, 
Poderei amar os trapos 
Por ser tudo que me deram.
E irei, príncipe mendigo, 

Colher, com a boa gente, 
Entre o ondular do trigo 
A papoila inteligente."

(Fernando Pessoa)

(13 de Junho 1888 - 30 Novembro 1935)





27 maio 2013

"Longe de ti..."



"Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas
Abertos sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, plenas de carinho

Os dias são outonos: choram, choram
Há crisântemos roxos que descoram
Há murmúrios dolentes de segredo
Invoco o nosso sonho, entendo os braços

e é ele oh meu amor, pelos espaços
fumo leve que foge entre os meus dedos."


(Florbela Espanca)

02 maio 2013

Finais do dia...


"Aquieta-se o silêncio na folhagem, 
que em árvores teceu amor antigo; 
sobressalto transposto da viagem 
que o dia rumoroso fez consigo. 

O coração, que é sombra na paisagem, 
dá às palavras vãs outro sentido; 
e é murmúrio desfeito na aragem, 
que do entardecer recolhe abrigo. 

Ares assim se fazem de uma luz 
que torna como baço o sol poente; 
e o coração à estrema se reduz, 
como o dia se volve mais ausente. 

Recolhem-se as palavras no vagar 
que dia nem fulgor nos podem dar. "

(Luis Filipe Castro Mendes, in "Viagem de Inverno")

22 abril 2013

"O jardim..."



"Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz."
(António Ramos Rosa)

05 abril 2013

"Florença vista de San Miniato Al Monte..."



"Abrigado na brancura multicor de um românico
italianamente clássico, o cardeal de Portugal
dorme, primeiro túmulo da Renascença,
o seu sono (inquieto?) virginal.
Será que a morte – erecta – lhe forçou
o orgasmo que ele recusou à vida?

Converso disto com os monges brancos,
risonhos, sem inibições. E desço a escadaria
de San Miniato al Monte. Outonal e fria
a tarde é rubra no Arno e em Florença ao fundo.

Na esplanada sobre o vale, sento-me
ao silêncio do entardecer, vendo
Florença, com as suas cúpulas e torres, que escurece
austera e refinada: o Duomo, o Bargello,
Santa Croce, os Uffizi, o Palazzo Vecchio
a ponte antiga, o Campanile, tudo – e os montes
e os ciprestes, e o céu pálido, a lua:
um momento incrível de fé na grandeza humana,
que não existe já mas paira ali suspenso,
ecoa pelas praças e nos pátios,
um misto de rigor e de volúpia, dignidade
das coisas e das formas, que o cardeal,
aqui do alto, e na margem oposta,
velou dormindo, e vela, virginal."


(Jorge de Sena)

21 março 2013

"Non sono niente..."


foto de filipe's glance
 
primeiro mês do curso semi-intensivo de italiano, está a chegar ao fim e a Escola vai organizar uma festa de Páscoa, onde os alunos foram convidados a participar, confeccionando algo típico do seu país ou a apresentar uma música, um teatro, uma poesia...algo de sua autoria e que gostassem de partilhar com todos os alunos da Escola.

Os portugueses (eu e o Filipe) vão contribuir com um doce! Por momentos, ainda pensámos,  pelo facto de a festa se realizar no Dia Mundial da Poesia de recitar, nas duas línguas, português e italiano, algumas das imortais palavras de um dos nossos poetas mais internacionais - Fernando Pessoa.
Mas, como essa ideia não se vai concretizar, deixo aqui algumas palavras deste nosso poeta...

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.(...)"

(Fernando Pessoa in Tabacaria)

"Non sono niente.
Non sarò mai niente.
Non posso voler essere niente.
A parte questo, ho dentro me tutti i sogni del mondo. (...)"
(tradução em italiano)

07 março 2013

"Ofereço-te Palavras..."


"Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido

está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que

continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.

Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse

beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei

em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une."

(Maria do Rosário Pedreira)

29 janeiro 2013

"Hoje de manhã..."


"Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer…
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre –
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar."

12 dezembro 2012

"O meu olhar..."



"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."

(Alberto Caeiro)

02 dezembro 2012

"Chove? Nenhuma chuva cai..."


"Chove? Nenhuma chuva cai... 
Então onde é que eu sinto um dia 
Em que ruído da chuva atrai 
A minha inútil agonia ? 

Onde é que chove, que eu o ouço? 
Onde é que é triste, ó claro céu? 
Eu quero sorrir-te, e não posso, 
Ó céu azul, chamar-te meu... 

E o escuro ruído da chuva 
É constante em meu pensamento. 
Meu ser é a invisível curva 
Traçada pelo som do vento... 

E eis que ante o sol e o azul do dia, 
Como se a hora me estorvasse, 
Eu sofro... E a luz e a sua alegria 
Cai aos meus pés como um disfarce. 

Ah, na minha alma sempre chove. 
Há sempre escuro dentro de mim. 
Se escuro, alguém dentro de mim ouve 
A chuva, como a voz de um fim... 

Os céus da tua face, e os derradeiros 
Tons do poente segredam nas arcadas... 

No claustro sequestrando a lucidez 
Um espasmo apagado em ódio à ânsia 
Põe dias de ilhas vistas do convés 

No meu cansaço perdido entre os gelos, 
E a cor do outono é um funeral de apelos 
Pela estrada da minha dissonância..." 

(Fernando Pessoa)

09 novembro 2012

"Gozo e dor.."



"Se estou contente, querida, 
Com esta imensa ternura 
De que me enche o teu amor? 
- Não. Ai não; falta-me a vida; 
Sucumbe-me a alma à ventura: 
O excesso de gozo é dor. 

Dói-me a alma, sim; e a tristeza 
Vaga, inerte e sem motivo, 
No coração me poisou. 
Absorto em tua beleza, 
Não sei se morro ou se vivo, 
Porque a vida me parou. 

É que não há ser bastante 
Para este gozar sem fim 
Que me inunda o coração. 
Tremo dele, e delirante 
Sinto que se exaure em mim 
Ou a vida - ou a razão." 

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

07 novembro 2012

"Quando eu sonhava..."




"Quando eu sonhava, era assim 
Que nos meus sonhos a via; 
E era assim que me fugia, 
Apenas eu despertava, 
Essa imagem fugidia 
Que nunca pude alcançar. 
Agora, que estou desperto, 
Agora a vejo fixar... 
Para quê? - Quando era vaga, 
Uma ideia, um pensamento, 
Um raio de estrela incerto 
No imenso firmamento, 
Uma quimera, um vão sonho, 
Eu sonhava - mas vivia: 
Prazer não sabia o que era, 
Mas dor, não na conhecia ... "

(Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas')

"Canção da minha Tristeza..."


"Meu coração não está nas largas avenidas 
nem repousa à tarde, para lá do rio. 
Nada acontece. Nada. Nem, ao menos, tu 
virás despentear os meus cabelos. 

Nem, ao menos, tu, neste tempo de angústia 
vens dizer o meu nome ou cobrir-me de beijos. 
Ah, meu coração não está nas largas avenidas 
nem repousa à tarde, para lá do rio. 

A cidade enlouquece os meus olhos de pássaro. 
Eu recuso as palavras. Sei o nome da chuva. 
Quero amar-te, sim. Mas tu hoje não voltas. 
Tu não virás, nunca mais, ó minha amiga. 

Nada acontece. Nada. E eu procuro-te 
por dentro da noite, com mãos de surpresa. 
Meu coração não está nas largas avenidas 
nem repousa à tarde, para lá do rio. 

E tu, longe, longe. Onde estás meu amor, 
que não vens despentear os meus cabelos? 
Eu quero amar-te. Mas tu hoje não voltas. 
Tu não virás, nunca mais, ó minha amiga. "

(Joaquim Pessoa)