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11 outubro 2013

Outono...


" (...) Vinha, por fim, o outono certo: o ar tornava-se frio de vento; soavam folhas num tom seco, ainda que não fossem folhas secas; toda a terra tomava a cor e a forma impalpável de um paul incerto. Descobria-se o que fora sorriso último, num cansaço de pálpebras, numa indiferença de gestos. E assim tudo quanto sente, ou supomos que sente, apertava, íntima, ao peito a sua própria despedida (...)"

(Fernando Pessoa in Desassossego)



13 junho 2013

" A Papoila Inteligente..."


"Renego, lápis partido, 
Tudo quanto desejei. 
E nem sonhei ser servido 
Para onde nunca irei.
Pajem metido em farrapos 

Da glória que outros tiveram, 
Poderei amar os trapos 
Por ser tudo que me deram.
E irei, príncipe mendigo, 

Colher, com a boa gente, 
Entre o ondular do trigo 
A papoila inteligente."

(Fernando Pessoa)

(13 de Junho 1888 - 30 Novembro 1935)





21 março 2013

"Non sono niente..."


foto de filipe's glance
 
primeiro mês do curso semi-intensivo de italiano, está a chegar ao fim e a Escola vai organizar uma festa de Páscoa, onde os alunos foram convidados a participar, confeccionando algo típico do seu país ou a apresentar uma música, um teatro, uma poesia...algo de sua autoria e que gostassem de partilhar com todos os alunos da Escola.

Os portugueses (eu e o Filipe) vão contribuir com um doce! Por momentos, ainda pensámos,  pelo facto de a festa se realizar no Dia Mundial da Poesia de recitar, nas duas línguas, português e italiano, algumas das imortais palavras de um dos nossos poetas mais internacionais - Fernando Pessoa.
Mas, como essa ideia não se vai concretizar, deixo aqui algumas palavras deste nosso poeta...

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.(...)"

(Fernando Pessoa in Tabacaria)

"Non sono niente.
Non sarò mai niente.
Non posso voler essere niente.
A parte questo, ho dentro me tutti i sogni del mondo. (...)"
(tradução em italiano)

02 dezembro 2012

"Chove? Nenhuma chuva cai..."


"Chove? Nenhuma chuva cai... 
Então onde é que eu sinto um dia 
Em que ruído da chuva atrai 
A minha inútil agonia ? 

Onde é que chove, que eu o ouço? 
Onde é que é triste, ó claro céu? 
Eu quero sorrir-te, e não posso, 
Ó céu azul, chamar-te meu... 

E o escuro ruído da chuva 
É constante em meu pensamento. 
Meu ser é a invisível curva 
Traçada pelo som do vento... 

E eis que ante o sol e o azul do dia, 
Como se a hora me estorvasse, 
Eu sofro... E a luz e a sua alegria 
Cai aos meus pés como um disfarce. 

Ah, na minha alma sempre chove. 
Há sempre escuro dentro de mim. 
Se escuro, alguém dentro de mim ouve 
A chuva, como a voz de um fim... 

Os céus da tua face, e os derradeiros 
Tons do poente segredam nas arcadas... 

No claustro sequestrando a lucidez 
Um espasmo apagado em ódio à ânsia 
Põe dias de ilhas vistas do convés 

No meu cansaço perdido entre os gelos, 
E a cor do outono é um funeral de apelos 
Pela estrada da minha dissonância..." 

(Fernando Pessoa)

30 outubro 2012

"Chove. Há silêncio..."


"Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva 
Não faz ruído senão com sossego. 
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva 
Do que não sabe, o sentimento é cego. 
Chove. Meu ser (quem sou) renego... 


Tão calma é a chuva que se solta no ar 
(Nem parece de nuvens) que parece 
Que não é chuva, mas um sussurrar 
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece. 
Chove. Nada apetece... 

Não paira vento, não há céu que eu sinta. 
Chove longínqua e indistintamente, 
Como uma coisa certa que nos minta, 
Como um grande desejo que nos mente. 
Chove. Nada em mim sente... "

(Fernando Pessoa)